Alessandra Horto - O Dia
Mulher do sargento Laércio de Melo Olegário, desaparecido desde o dia 15 em missão da Marinha na Antártica, recebe com revolta os pertences do marido, embalados em sacos
Rio - Em vez de abraçar o marido após sete meses sem vê-lo, Maria Goretti dos Santos Olegário, 40 anos, esposa do segundo-sargento Laércio de Melo Olegário, 42, desaparecido desde o dia 15 de março em missão da Marinha na Antártica, encontrou no chão sacos plásticos com roupas, bolsas e diversos objetos pessoais do marido. Era a constatação de que ele nunca mais voltaria para os braços da família. “Foi nesse saco preto que o meu marido se transformou. É isso que recebi, quero ele de volta!”, disse Goretti, em crise nervosa ao rasgar as sacolas com os pertences do sargento no porta-malas do carro da família. “Estou decepcionada com a Marinha. A bagagem estava largada. Mexeram nas coisas dele, estava tudo revirado, ele tinha um armário com cadeado, por que fizeram isso?”, reclama.
A Marinha aconselhou Goretti a não ir ao porto, para não ter que passar pela dor de ver os companheiros do sargento desembarcando. Não houve homenagem oficial quando o navio Ary Rongel atracou às 10h de ontem no porto do Complexo Naval da Ponta da Armação, em Niterói.
A advogada de Goretti, Cláudia Sofia Martins, disse que o comandante do navio recebeu a família muito bem, sendo atencioso e prestativo. “Foi muito difícil para a minha cliente encarar que todos estavam de volta”, diz. A advogada vai aguardar a conclusão do inquérito policial militar para entrar com processo na Justiça. “Devo voltar ao Complexo hoje ou amanhã para pegar a cópia do inquérito. Vamos acompanhar de perto as investigações”, disse Cláudia.
Segundo Cláudia, a Marinha parou de insinuar que o sargento Laércio poderia ter se matado. Para Goretti, o suicídio está fora de cogitação. “Ele era um excelente pai, um instrutor de navegação experiente, todos os amigos e vizinhos estão revoltados por a Marinha inicialmente achar que ele acabou com a própria vida”.
O militar Hércules Castro, que desembarcou do Ary Rongel, afirmou que pegou o navio apenas em Montevidéu, não estava na Antártica, mas acabou se contradizendo: “Tentamos achá-lo, mas não conseguimos. Perdemos um grande amigo lá”. Segundo Castro, havia 78 pessoas no navio, entre pesquisadores e militares. Dois tripulantes, que não quiseram se identificar, disseram que a viagem ficou muito difícil após o desaparecimento. Visivelmente abalados, eles contaram que já era tarde quando perceberam a ausência do amigo.
SARGENTO HAVIA SIDO PUNIDO POR NÃO TER SALVADO UM COLEGA
O segundo-sargento da Marinha Laércio de Melo Olegário desapareceu 15 de março no navio de apoio oceanográfico Ary Rongel, que estava a serviço na Antártica desde outubro.
Com 23 anos de Marinha, era o responsável por salvar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, caso sofresse algum acidente durante a sua visita ao navio, que aconteceu 17 de fevereiro. Ele integrava o grupo de mergulhadores.
O grupo percebeu a ausência quando o navio de apoio seguia da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) em direção à base chilena Presidente Eduardo Frei (Base Frei), na Ilha Rei George. Segundo nota divulgada pelo comando do 1º Distrito Naval, quando o sumiço do militar foi percebido, as buscas foram iniciadas no navio e nos setores da Baía do Almirantado, apesar das condições meteorológicas bastante severas.
Dias antes do sargento desaparecer, ele se envolveu num incidente, quando um colega caiu no mar, de um bote conduzido por ele. Como não prestou socorro, foi suspenso da missão e voltaria para casa antes do tempo previsto.
Segundo Maria Goretti, viúva do oficial, o comandante do navio Ary Rongel contou a ela por telefone que o sargento Laércio estava sem condições emocionais para trabalhar. O motivo seria a punição por não resgatar o colega.
Antes do desaparecimento, o militar traçava planos de passeios com a mulher. A idéia era viajar pela primeira vez para o exterior: eles iriam se encontrar em Montevidéu. Depois iriam à casa da mãe dele, em Natal, Rio Grande do Norte.
Na última vez que teve contato com a família, dia 9, pelo computador, o sargento estava muito feliz e disse que essa era a última viagem a serviço porque queria ficar mais tempo com as duas filhas e com a esposa. Principalmente por causa da saudade.
‘Quis ter certeza de que ele não chegará’
Em quase um mês de agonia, a família do segundo-sargento Laércio de Melo Olegário sofre com a ausência dele e com a falta de informações concretas.
Segundo Maria Goretti, a filha mais velha não teve coragem de ver o navio chegar sem o pai. “Ela preferiu ficar em casa. Está doente, com o sistema nervoso abalado”, disse a mãe. A filha mais nova ficou dias sem estudar.
A fé em Deus e as orações ajudam nos momentos mais difíceis. “Só Deus sabe como estou aqui, para receber os pertences do meu marido. Vim para ter a certeza de que ele não chegará”, disse.
A advogada Cláudia Martins completou dizendo que era como se Goretti estivesse velando o marido, pois ela não terá o direito de enterrá-lo. “O caso é muito triste. É um mistério para a família. Deve ser desvendado”.
Além do drama com a morte do sargento, uma possível dificuldade financeira também preocupa a família. O salário será repassado por seis meses. Após o período, ela deverá entrar com processo na Justiça para requerer a pensão.


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